Sexta-feira, Maio 25, 2012

LITERATURA REGIONAL - CARLOS ALBERTO SUNIGA DOS SANTOS E SUA OBRA "IMAGO" (2002)

by RÔMULO GIÁCOME DE O FERNANDES

A presente postagem objetiva apresentar um pouco da produção poética de Carlos Alberto Suniga dos Santos e sua obra "Imago" (2002). O presente conteúdo foi comunicado por mim no 3º SILIC, Simpósio de Literatura Contemporânea, que ocorreu em Vilhena (24 de Maio, 2012).

O regional sempre foi motivo de muito embate. Até hoje não é possível antever uma solução a este dilema teórico, uma vez que a crítica balizada anda “preguiçosa”, como afirmou Milena Magalhães, na abertura do 3º SILIC, Vilhena, 2012. No entanto, no diapasão entre as cores locais, o localismo geográfico e temático; para com a produção “na”, nascida aqui, consumida aqui e criticada aqui, celebro a tese de que o nosso circuito crítico ainda é muito deficitário, o que desfalece qualquer tentativa de produção artística local. O regional deve ser tratado também em toda a sua dimensão: público leitor, divulgação e distribuição, crítica, proliferação popular nas mídias, entre outras situações, que devem ser retroalimentadas. Somente assim podemos falar em evolução do regional para o universal, e romper barreiras naturais da leitura e produção de literatura em nosso Estado. Nessa esteira de discussão, apresento-lhe o maravilhoso Carlos Alberto Suniga dos Santos, poeta maior, de Cacoal, ativista da literatura, militante da docência e artista plástico. A metodologia utilizada foi considerar mais a produção do que a análise. Divididas em três categorias, os poemas aglomeram-se por unidades temáticas.

1 METAPOEMA

As poesias “Escriba, Imago e palavra” possuem uma temática que concentra a ideia de “[...] a linguagem e seu poder de estar sempre se transformando[...]”, tendo como fator principal os códigos semióticos e sua capacidade de remontar formas, cores e sinais comunicativos.

Nas palavras há algo
como de ponta de arco-íris
que sempre se cumpre ligeiro
e distante do olhar perdido  
                     (Imago, 2002)

Na estrofe acima é possível antevermos a “potência poética”, ou seja, o caráter ideal do sentido; o final do arco-íris que nunca será debastado ou ao menos visto, é o sentido final do texto, sua pragmática enquanto motor da linguagem.
Neste contexto, o metapoema quer referenciar exatamente este poder que a linguagem poética possui ao modular em busca de despertar a curiosidade do leitor.    

Todas as coisas são palavras
                                 (Palavra, 2002)

O poema “Palavra” afirma que tudo o que pensamos, fazemos ou respiramos, se infesta de linguagem. Além de inverter a noção coisa / palavra ou palavra / coisa.

Inverter a ordem,
Subverter o sentido.
Revelar aos olhos
Este som esquecido.
                     (Escriba,2002)


Traduzimos uma inquietação dentro da perfomance do signo poético. Remontar, montar e sucumbir aos desígnios das possibilidades combinatórias dos referentes, bem como assinalar a potência da relação entre camadas significantes díspares, como imagem, som e texto.
Em suma, “Escriba” é um poema que retrata a linguagem literária, sendo que sua práxis poética está sob a égide de “subverter o sentido”. A figura de estilo que melhor representa essa ideia é a metáfora, pois se apropria de uma palavra dando-lhe um novo significado.

2 UMIDADE

A obra Imago foi constituída por quarenta e cinco poemas, e dentre esse poemas podemos observar uma marca própria do autor Carlos Alberto Suniga. A presença frequente das palavras “umidade” ou de elementos semânticos que estão ligados a ela. A palavra “Umidade” e seus desdobramentos está presente em oito poemas da obra. O que deve ser observado é que em grande parte dos poemas não há repetição de seu significado, ou seja, em cada situação apresenta um novo sentido. É um desdobramento do úmido enquanto instrumento de comunicação poética.
                                
A onda e sua úmida curva,
O vento em seu aéreo movimento
A terra no tremor do afastamento.
                                 (palavra, 2002)


Zumbido de luzes,
Escorrendo...
Líquidas aquarelas furtadas,
Rolar de faíscas úmidas
De diluídos brilhos,
De vozes caladas.
Correnteza, na leveza,
Desejada.
                     (Regato, 2002)
              


As caravelas de nuvens
em nossos olhos.
Eu e você,
sentado, lado a lado,
e cada um
num dos extremos do mundo.
Sempre a presença úmida
da traição inconfessada no beijo último.
                     (Distância, 2002)


  E uma tristeza úmida em mim se enraizou
                                                           (saudade, 2002)

A construção que flutua e concatena camadas de sensações e sentimentos, formam uma sinestesia em perfeita conjunção.
                                              
                                                                                 
                          Não salvei, tão curtos meus dias,
  de chuva, e de úmidas respostas,
  as coisas mais simples e pequenas
  que da vida se mostram despretensiosas.                                                                              (Amanhã,2002)

A umidade forma um processo contíguo de valorização expressiva da palavra em busca de sua subjetividade, sendo utilizada como emuladora impessoal do sentimento.

                          A manhã tem o silêncio úmido
  dos desacordados suores da terra.
  É como um olho desperto
  depois de uma noite eterna.
                                                           (Manhã, 2002)

                                              
                          São como que brilhos turvos,
                          Na noite enluarada,
                                      Fagulhas de faíscas úmidas,
                                      Rompendo a madrugada.
                                                           (As estrelas, 2002)

Inscrita na base da forma, além da possibilidade visual, é aberta, na estrofe acima, uma possibilidade dimensional, onde o movimento das faíscas ensejam a possibilidade do seco / molhado da entropia poética.

3 AUSÊNCIA
A palavra “ausência” se repete em nove poemas da obra Imago, seguindo uma mesma estrutura de “umidade”, pois em cada a palavra “ausência” possuem significados diferenciados, tornando-seum signo poético. Vejamos a seguir.

                          Talvez tudo isso seja apenas
                          a chuva fina que cai.
                          Ou talvez essa tua ausência,
                          de uma distancia tão presente
                          que me tem assim enevoado
                       (saudade)


Literalmente, a palavra ausente surge como manifestação da tensão entre o ser / estar no mundo com alguém. Elemento típico do poeta.
                         
                          Como se já não houvesse o amanhã...
  existisse apenas uma ausente rota,
  me perdi, vencidos tantos anos,
  nessas horas escuras e mortas
                                               (IMAGO, AMANHÃ, 2002)

  E a vida que passava, distante,
escorria entre as nossas saudades.
Do futuro só a lembranças,
projetos ainda inacabados.
Do presente a ausência
                                      cada vez mais forte, nossos temores,
                                      e a certeza da distância dilatada.
                                               (A partida, 2002)


                                      Eles vêem o não visto                      
                                      o quase ausente.
                                      O que já fora antes,
                                      E o amanhã do presente.
                                                           (os olhos do menino cego, 2002)

 O interessante nesse poema é que ausência nessa estrofe tem valor literal. Nesse caso, o autor não usa a palavra ausência metaforicamente, mas sim, quando fala “o quase ausente”, quer referenciar como funciona a vida de uma pessoa cega, em outras palavras, a negação da imagem.

                                      Há toda uma ausência nas palavras.
                                                                       (Imago, 2002)
                                                                      

Em suma, a preocupação formal do texto, sua tessitura e estrutura, bem como o jogo tridimensional com formas e sons, perfazem traços típicos de um poeta maior, astuto nos recursos, profundo na cosmovisão, atento nas malícias / delícias da palavra, mas que as limita, traz para dentro de si, com medo de fugirem rumo a fugacidade da falsa poesia, irmã da retórica sustentada em pés de barro. Indispensável leitura.


Quinta-feira, Maio 17, 2012

COMUNICAÇÃO E PERSUASÃO: A IDEOLOGIA DO SIGNO

By Helem Cristiane Aquino dos Anjos Fernandes*

Mikhail Bakhtin foi um dos primeiros estudiosos a atentar para a importância de se estudar a natureza do signo linguística para se reconhecer os tipos de discurso. Esse interesse o levou a formular uma das mais brilhantes teorias sobre o assunto. Em seu livro Marxismo e filosofia da linguagem, o teórico expõe que é impossível afastar dos estudos das ideologias o estudo dos signos.
Há entre signo e ideologia uma relação de interdependência. Desse modo só é possível o estudo dos valores e idéias contidas no discurso analisando a natureza dos signos que os constroem. Para esclarecer melhor essa relação existente entre signo e ideologia, observe o seguinte exemplo: Janaína brigou com seu namorado. No dia seguinte enviou-lhe um buquê de rosas vermelhas. Implícito nesse ingênuo buquê de rosas contempla-se a simbologia do amor expresso pela cor das rosas, o vermelho, a intencionalidade de mostrar-lhe o seu arrependimento e o seu pedido de desculpas e, principalmente, a intencionalidade de persuadi-lo a perdoá-la. O signo flores é muito rico em seu conteúdo significativo, capaz de veicular inúmeras ideologias e intencionalidades. Segundo Bakhtin, “Tudo que é ideológico é um signo. Sem signo não existe ideologia” (BAKHTIN, 1979. p.17).
Existem instrumentos que perderam o seu sentido inicial para se transformarem em signo, isto é, passaram a funcionar como veículo de transmissão de ideologias. A pomba, por exemplo, passou a representar a paz, assim como a balança representa a justiça e o cifrão representa o dinheiro. Em todos esses exemplos, é possível saber até onde existe instrumento ou produto de consumo, e onde começa o signo. Em uma única palavra estamos diante da passagem do plano denotativo para o plano conotativo. O vinho enquanto tal denota uma bebida; entretanto, no contexto religioso, passa a conotar o sangue de cristo.
Nós seres humanos temos a capacidade de absorver as palavras para transformá-las e reproduzí-las. Desenvolvemos, dessa forma, um circuito de formação e reformulação de nossas consciências. Partindo desta observação, é possível dizer que o modo de conduzir o signo é de fundamental importância para a compreensão dos modos de se produzir à persuasão.
É interessante observar que uma das preocupações da linguagem persuasiva é provocar reações emocionais no receptor. Dessa forma, o discurso persuasivo se vale de recursos retóricos com a principal finalidade de convencer e ou alterar comportamentos e atitudes. Portanto, ele se apodera de signos que tem possibilidades de superposição, ou seja, o coração é um signo que tem possibilidades de superposição, pois pode representar o amor, assim como a maçã pode representar o pecado ou a sedução.
            Quando o principal interesse da mensagem é atingir o receptor no intuito de o convencer sobre alguma coisa, a função conativa entra em ação. A etimologia da palavra conativa vem do latim conatum, cujo significado é convencer o receptor através de um certo esforço. Portanto a função conativa pode ser denominada, a função da linguagem que visa a persuasão dos interlocutores. Este é o tipo de linguagem mais comumente utilizada em propagandas.
Para a linguagem da propaganda, por exemplo, as mensagens construídas visam essencialmente atingir o receptor. Possuem, no seu ato de configuração dos signos, características de função poética, visando sensibilizar o público pela beleza da argumentação. Por trás da mensagem publicitária há sempre o imperativo do consumo da mercadoria apresentada. (CHALHUB, 1990. p.23/25).

            Os recursos utilizados pela retórica, como a metáfora, a metonímia, a hipérbole, o paradoxo, entre outros, tornam o discurso potencialmente persuasivo. A palavra, o discurso e o poder se completam quando o intuito é persuadir.
            A argumentação, segundo algumas teses, pode ser considerada a função básica da linguagem e da comunicação, isto é, o ato de argumentar pode ser entendido como o ato de persuadir. A necessidade do homem em se comunicar, de interagir socialmente, o leva, de alguma forma, a desejar exercer influência sobre o mundo que o cerca. Por intermédio da língua dota seu discurso de intencionalidades, veiculando dessa forma ideologias por meio da argumentação.
            Conclui-se que todos os tipos de discurso, dos mais simples aos mais elaborados, carregam consigo a mesma característica: intencionalidade de veicular algum tipo de ideologia de modo a exercer influencia no comportamento e nas atitudes do interlocutor. Até mesmo o próprio silêncio, num determinado contexto, pode veicular alguma intencionalidade, de representar o luto, a indiferença, a perplexidade, e etc. Em fim, todos os tipos de discurso se valem de signos verbais ou não verbais para veicular ideologias.         

A autora é Letróloga pela UNESC/RO, Especialista e Professora da Rede Estadual de Educação.  

Segunda-feira, Maio 07, 2012

ASPECTOS DO ROMANCE: CONFERÊNCIA SOBRE "A INVENÇÃO DE MOREL" de ADOLFO BIOY CASARES

CICLO DE PALESTRAS: ASPECTOS DO ROMANCE (Origem. Percursos. Perspectivas).
Tema da Minha Conferência: "Adolfo Bioy Casares e a Invenção de Morel".

"A invenção de Morel é considerada uma obra-prima. Notadamente fruto de um grande argumento, é um relato que desafia os limites da ficção, história e estória. Na tônica literária criada por Borges trafega entre fatos narrados por meio de um diário que, ora legitimado ora refutado, torna-se um penetrar o labiríntico e inconstante cenário memorial de um homem crispado por alucinações, doença e medo. Visões em um local inóspito (uma capela, piscina e museu?) lhe despertam para refletir sobre a própria vida. Misteriosamente, as aparições fantasmagóricas em uma Ilha deserta, que mata "de fora para dentro" é uma excelente alegoria para discutir a imortalidade dentre outras variáveis humanas. Segundo Borges: "Li e reli. Não é exagero chamá-lo de perfeito".






Terça-feira, Abril 24, 2012

UM PRÓVÁVEL DIÁLOGO ENTRE DIÓGENES E DEMÓSTENES

UM PRÓVÁVEL DIÁLOGO ENTRE DIÓGENES E DEMÓSTENES
by Bernardo Schmidt Penna

Diógenes (404-323 a/C), filósofo grego dos Cínicos, famoso por desprezar as convenções sociais e os poderosos, se notabilizou por andar com uma lanterna à procura de um homem honesto e por morar em um barril.

Demóstenes Torres, senador da República, ex-Procurador de Justiça e ex-delegado de polícia, tornou-se conhecido por sua vociferação a favor da ética, sua defesa intransigente dos bons costumes e pela veemência de seus ataques. Ultimamente, figura nos noticiários policiais acusado de envolvimento com a máfia dos jogos ilegais de Goiás, seu estado natal.

Pode-se imaginar o diálogo que se segue, extraído de imaginária escuta telefônica autorizada, pensando mesmo o senador Demóstenes que o filósofo Diógenes havia terminado sua busca.

- Demóstenes: “Bom dia, o que o senhor faz com uma lanterna na mão em pleno dia?”

- Diógenes: “Procuro um homem honesto.”

- Demóstenes: “Que sorte a sua: Acaba de encontrar.”

- Diógenes: “E quem seria?”

- Demóstenes: “Eu, naturalmente. Famoso senador, defensor da ética e da moral. Acusador implacável. Incorruptível.”

- Diógenes: “Entre os animais ferozes, o de mais perigosa mordedura é o delator; entre os animais domésticos, o adulador.”*

- Demóstenes: “As injúrias, as calúnias e as difamações minam a resistência até de quem nada teme, mas permaneço firme na fé de que a verdade triunfará.”*

- Diógenes: “Até mesmo o sol penetra nas latrinas, mas não é contaminado por elas.”*

- Demóstenes: “A tudo suporto porque nada fiz para envergonhar meu partido, o Senado, Goiás e o Brasil. Essa é a verdade que, ao final, prevalecerá.”*

- Diógenes: “Devemos ter amigos que nos ensinam o bem; e perversos e cruéis inimigos, que nos impeçam de praticar o mal.”*

- Demóstenes: “Dói enfrentar o olhar sofrido de familiares torcendo para o tormento passar logo. Mas as inverdades chegam açodadas; a reparação, lentamente.”*

- Diógenes: “Perdão, meu senhor, mas, no mínimo, para o homem honesto, valem mais as atitudes do que as versões. E o que se tem mostrado contra o senhor não o faz enquadrar em minha busca.”

* As frases assinaladas de Diógenes foram colhidas da internet e as de Demóstenes de seu twitter.

Advogado, mestre em Direito e professor do Curso de Direito da Unesc. Bernardo@unescnet.br.



Quarta-feira, Abril 18, 2012

3º SILIC - SIMPÓSIO DE LITERATURA CONTEMPORÂNEA (23, 24 E 25 de MAIO)

Evento de peso para a Literatura Contemporânea no Estado de Rondônia, conclamo a todos os acadêmicos, pesquisadores e professores a participarem e discuturem a literatura hoje, bem como seus diálogos com público, teorias, tendências e o regional, mote deste 3º Simpósio. Mais informações no site oficial:
www.gepec.unir.br/silic
Clique nas imagens para ampliá-las.






Terça-feira, Abril 10, 2012

CULTURA DE VIAGEM: LOCAIS, MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUEA E CENAS DE SP (2008)

EM 2008 CONHECI SÃO PAULO PELA PRIMEIRA VEZ; OS REGISTROS DESTA VIAGEM FICARAM GRAVADOS NA MENTE E EM FOTOGRAFIAS, PEQUENOS ÍCONES ATEMPORAIS DE UM GRANDE MOMENTO. ESTE RELATO TEM POR OBJETIVO DEMARCAR ESTA PEQUENA ICONOGRAFIA DE VIAGEM.

Não ter conhecido São Paulo antes pode ter sido um erro cabal. Pode soar como um limitador cultural, pois viver fora da rota nos torna menos participativo no consumo e produção cultural. Mas por outro lado, um olhar mais detido e contemplativo, aquele mesmo olhar de perplexidade que assoma da curiosidade e desejo de novo, pode extrair novas perspectivas e formatos, bem como inaugurar uma outra forma de compreender a nossa história e as marcas que ela deixa em coisas, locais e pessoas.

O roteiro era Americana, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Neste ínterim, passar em São José do Rio Preto era resgatar todo um imaginário do Mestrado na UNESP, rever locais que vi em tão breve estada, rememorar situações bacanas e compartilhar com a Família. E um destes pontos centrais é o restaurante Sal e Brasa. De qualidade ímpar e extrema sofisticação, foi o portal de conversão para a  qualificação e defesa de minha dissertação. Era preciso voltar.  E com a família inteira.
Bairro Liberdade. Nos acolheu e acolhe sempre. Perdidos na selva de pedra, um oasis de luz / balão.
Um mundo nipônico a parte, com seus produtos, comida e suas idiossincrazias. Espetacular.

Até chegar na Estação da Luz, surpresas pelo caminho. A famosa rua de vestidos do Brás, expondo o casamento nu. Do alto, a noiva espera a felicidade (imagem 01). Na segunda imagem, o suporte clássico sustenta vestidos de noiva objeto, expostos ao lado de um anjo barroco que não acredita no casamento ou tem muitas dúvidas. O pós-moderno ato de pichar e demarcar o já demarcado simbolismo do branco / anjo. São Paulo e suas cenas de um cotidiano cult.
Nas portas do Museu da Língua Portuguesa, o olhar feliz de quem viu a palavra viva. Um projeto sensacional, que une informação, tecnologia, literatura, cultura e idioma.  Nas imagens abaixo, o eterno Augusto dos Anjos e seu clássico real; pegadas de palavras no chão, onde o pequeno Jeferson salpica o olhar alegre. Helem descobrindo a força vital do idioma. Todos professores felizes.

As palavras saltam do teto ao chão, em busca do leitor; e o leitor, em busca dela, se agacha e se ajoelha diante de sua magnitude. A palavra plástica em busca da sua forma, se dobra sobre si mesma em busca do seu sentido. No chão, no teto e em qualquer lugar, a palavra vaga-lume pisca.
Abaixo o antigo saguão de trem da estação da Luz. Formas grandiosas passam incólume aos olhos fatigados dos trabalhadores.   


A Pinacoteca, ladeada pelo belíssimo jardim, vulgarizado pela mão que afaga e apedreja.

São Paulo ferve. Tem febre e produz, divulga e consome. É o epicentro cultural Brasileiro. 
Helem e Thonny nas instalações modernas da Pinacoteca; arte moderna em bacias / antenas de captar atenção. Nas grandes salas abertas do museu, o pós-moderno rompe, já eterno.
É inegável que o contato cultural com museus e salas especiais, focadas em arte antiga ou moderna, traduz no homem sua espiritualidade mais importante: a capacidade de aprofundar-se e refletir sobre si mesmo a partir da arte.

Quarta-feira, Abril 04, 2012

DIFERENÇAS ENTRE MODERNISMO E MODERNIDADE

MODERNISMO E MODERNIDADE: DIVERGÊNCIAS NOMINAIS
By Rômulo Giácome


O timbre deste texto tem mais a ver com a exploração de experiências teóricas, fluídos de conhecimento e perspectivas críticas do que aportar em uma plataforma segura de um teórico ou recorte bibliográfico, pelos ombros de outros autores. Desta forma e tônica, o presente texto tem a pretensa vontade de dissociar os termos Modernismo e Modernidade, mesmo sabendo que esta tarefa pode estar incorrendo em posicionamentos contundentes.
Assim, ao estudar o Modernismo Brasileiro, principalmente seus antecedentes e sua fase heróica, monumento erigido pela semana de arte moderna, o termo modernismo parece saltar aos olhos como uma característica inerente ao processo de nacionalização, mudança de paradigmas e divergências críticas que eclodiu nos idos de 1922.
No entanto, o Modenismo, especificamente o Brasileiro, foi um movimento cultural e literário, demarcado por uma cronologia específica e crítica própria (que se amplia e diversifica no passar do tempo), bem como movimentos políticos próprios. Enquanto unidade teve sua égide sobre o experimentalismo, convergência de vanguarda e crítica literária, bem como o Nacionalismo. A propositura do moderno teve formas multifacetadas, por influir em um movimento de resistência, mas adequação aos movimentos rápidos e vanguardísticos que vociferavam no mundo inteiro. Também por transigir a crítica histórico / bibliográfica que predominou em nossa literatura, em busca de uma crítica mais apropriada ao discurso poético.

Os poetas modernistas, da alçada de Mário de Andrade e Oswald, deixaram um legado do pensamento modernista que mais influenciou o futuro da nossa poesia. O atuar sobre a literatura, agir sobre ela, para e com ela, provocaram os primeiros impulsos rumo à literatura de maior valor, com maior conteúdo teórico / canônico agregado.

Uma característica própria do Modernismo é ser encarado enquanto período delimitado cronologicamente e politicamente, dentro de um circuito de produção, crítica e leitor. Economicamente, a história literária e a teoria literária enquadram o modernismo conectado ao desenvolvimento econômico e urbano que o Brasil experimentou a partir de 1910 até a era Getúlio. Neste processo de produção inclui a “Paulicéia Desvairada” e o simulacro de uma sociedade urbana em consolidação. Um processo interessante de dilatação e decantação do Modernismo de 1922 foi a perspectiva tradicional que se assomou nas gerações modernas posteriores, culminando no verso de João Cabral, em passagem por Murilo Mendes e Jorge de Lima.

Tratando agora da modernidade, ela nasce do espírito de ruptura, de negação da tradição, da implantação de um cânone futuro repensado. É energia que se move pelos degraus da história literária, mola que impulsiona repelindo. A modernidade trafega pelo século XX, lançada que foi por autores como Baudelaire e Mallarmé. Os primeiros passos rumo a um verso mais elaborado, que encontre respaldo somente em sua estrutura rítmica e visual, foram alargadas pelas teorias modernas, como a Semiótica, que propôs a inauguração do signo poético. Recolhido pelos críticos concretistas, movimento que sofisticou e aparelhou a crítica literária brasileira, o signo deflagrou uma perfeita intersemiose entre o espaço branco do papel e a escrita, inscrição, sinal, signo, povoado de elementos verbivocovisuais. A modernidade, ao mesmo tempo que se lança inovadora frente á tradição, ao estratificado e canônico, se vendendo nova, tem que viver pouco. Manter-se nova é ter ciclo de vida, é ser vanguarda. A obra, enquanto objeto de consumo, mesmo que “moderna”, é refém de sua própria natureza de objeto de consumo estético. Pode e deve ser substituída enquanto proposta. A modernidade lança o contundente e inusitado para frente, tentando voltar ao presente explicando, via de teorias, formas, manifestos e discussões. A modernidade é caminho fértil da crítica. Em seus buracos, ditos e desditos o discurso crítico sobrevive, como corais, tornando a literatura povoada de cores e formas.

Como um fazer / querer / poder a modernidade se apropria das tecnologias da linguagem e das novas técnicas de comunicação. Pelo desgaste que a língua sofre durante seus séculos de existência, a busca por novos suportes e a mistura do procedimento com o fazer inauguram as modernidades pós 80 e do porvir. Assim como os blogs buscam na textualidade simultânea, no intimismo a subversão das antigas crônicas, os relatos e aforismos poéticos das redes sociais culminam na busca do alicerce de uma nova lírica. Uma suposta “lírica social?”; uma suposta teoria lírica vai ser desconstruída e outra será construída, à mercê do novo.
Por fim, a modernidade tem que conviver com a crise da poesia. A crise da poesia que reivindica uma “pedagogia da poesia”, uma práxis da poesia, um ativismo da poesia; um “colegiado” da poesia?
Em suma, o modernismo é um marco de formas diversas, conclusões teóricas díspares, mas um momento literário que se propagou e é estudado desde 1922 até 1950.
Já a modernidade é um espírito, uma práxis dentro do processo literário de produzir, recepcionar, publicar e estudar a literatura, levando em conta sua evolução. O modernismo é possível ver no passado. A modernidade ainda está acontecendo.


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